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sexta-feira, 15 de março de 2013

Carneiro






Estamos quase na Primavera e com ela chega também Carneiro.

O ingresso do sol em Carneiro é o equinócio da Primavera. A palavra equinócio vem do Latim, aequus (igual) e nox (noite), e significa "noites iguais". O dia e a noite duram o mesmo tempo, 12 horas. 

Carneiro é o impulso primordial de manifestação. Signo masculino, cardeal de fogo, é a primeira expressão da vontade e da identidade.


Depois do Inverno, do recolhimento, tudo desperta para a vida na Primavera. Carneiro representa o despertar para a vida, as possibilidades de começo, de lançar sementes. Em Carneiro é libertada a energia do fogo que representa o processo de identidade, o reconhecimento do sentido do Eu através da acção, que será maturado em Leão e desenvolvido em Sagitário. Após o período de "conservação" do Inverno, a vida desperta com a chegada da Primavera. É o nascer do dia, o acordar de todas as possibilidades que cada nascer do dia traz consigo… sair da letargia. Carneiro representa o início de um ciclo de experiência, é o primeiro signo do zodíaco, símbolo do primeiro degrau nesta escada de 12. Como primeiro signo, o impulso é direccionado para a acção directa e imediata, abrir caminhos é primordial. Para ser o primeiro é necessário coragem, ousadia, auto-confiança, liderança, competição e impulsividade. Assertividade e agressividade são duas palavras-chave definitivamente ligadas a este signo e, se ambas partem do mesmo ponto, a primeira refere-se a acção construtiva e positiva, enquanto que a segunda se refere a acção destrutiva. Quando de alguma forma Carneiro está bloqueado no nosso mapa natal, há dificuldade em expressar vontade, ser autónomo, assertivo, em agir… muita frustração. Carneiro pode ser muito individualista e, por isso, é o signo oposto e complementar, Balança, que lhe mostra a necessidade de levar os outros em consideração, de pensar nas consequências das suas acções.
Ao nível da personalidade, Carneiro é regido por Marte e muito marcado pela expressão instintiva e primária de satisfação de desejos. Ao nível da Alma, Mercúrio é o regente. É o berço das ideias. Carneiro é a projecção, tanto de impulsos criativos (mercúrio como regente esotérico), como é a devoção aos impulsos do ego (marte - regente da personalidade). Quando Carneiro está a trabalhar ao nível da alma, mercúrio introduz novas ideias que vêm do mental superior, dando por isso acesso aos arquétipos. Quando está a trabalhar apenas ao nível da personalidade, o instinto de Marte é apenas de satisfação dos desejos do ego. Mercúrio faz a ligação da personalidade à Alma construindo a ponte que acessa às ideias divinas. É o fogo de Carneiro que traz as ideias criativas, cumprindo a vontade do plano.

A casa onde aparece Carneiro no nosso mapa natal, é a área de vida onde nos precisamos afirmar como indivíduos, onde temos de cultivar a liberdade para expressar independência, onde podemos ousar. 

Carneiro: Assertivamente, urgentemente, imediatamente


Palavras-chave: Iniciativa, independência, espontaneidade, juventude, pioneirismo, acção, impulsividade, liderança, competição, desafio, directos, coragem, entusiasmo, dinamismo.
 MARTE
Vera Braz Mendes

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

O Amor Maior

"É preciso validar a nossa criança interior, é preciso validar a sua dor para podermos encontrar a sua alegria, a sua criatividade, todo o seu potencial"





“…I found the greatest love of all inside of me. The greatest love of all is easy to achieve, learning to love yourself, it is the greatest love of all.” (Eu encontrei o maior amor de todos dentro de mim. O maior amor de todos é fácil de alcançar, aprender a amar a si mesmo é o maior amor de todos). The greatest love of all – Whitney Houston


Faz hoje um ano que Whitney Houston morreu. Nessa altura escrevi este texto que hoje republico.
Mesmo quem não gosta do tipo de música, não fica indiferente à voz. Eu também não fico. Gosto muito de Whitney Houston.

Não me lembro quando foi a primeira vez que ouvi esta canção, The greatest love of all, mas sei que me emociono sempre com a letra. “Learning to love yourself it is the greatest love of all” (aprender a amar a si mesmo é o maior amor de todos). Olhando para vida de Whitney, possivelmente ela não foi capaz de o fazer, não foi capaz de encontrar o maior amor de todos. Nem sempre é assim tão fácil. Deixamos que demasiadas sombras tapem a nossa luz, ou tentamos levar a vida a negar que a sombra também existe em nós. E tudo aquilo que não somos capazes de aceitar como uma parte nós acaba por ganhar demasiada importância, passa a dominar a nossa vida. Começa a espreitar em cada esquina, em cada relacionamento. Carl Jung afirmou; “Uma pessoa não se torna iluminada a imaginar figurinhas de luz. Uma pessoa torna-se iluminada ao tornar a escuridão consciente”. Este tornar a escuridão consciente é darmo-nos a nós próprios a oportunidade de levar luz à nossa escuridão, em vez de nos identificarmos com ela ou fingirmos que não existe. Muitas vezes passa por sermos capazes de objectivar a nossa própria subjectividade. Perdemo-nos na nossa subjectividade e é necessário ganharmos a capacidade de nos dissociar, olharmos de fora. Outras vezes, passará por deixar de lado tanta objectividade e permitirmo-nos sentir. Todos somos diferentes. Todos nascemos brilhantes.

Em todos nós vive uma criança formada a partir das memórias das nossas vivências pessoais. É a nossa criança interior. No fundo, a criança interior representa a forma como percepcionámos o mundo, como recebemos o mundo. A criança interior é aquela que ficou registada no nosso inconsciente a partir da nossa memória das vivências pessoais. Todos queríamos ser especiais para as pessoas que amávamos. Todos queríamos colo. Todos queríamos protecção. E há aqueles que tiveram e nunca chegava, queriam sempre mais. E há aqueles que pouco ou nada tiveram e habituaram-se a isso, como se não merecessem. Muitas vezes, não tem a ver com aquilo que nos foi dado, tem a ver com a maneira como por nós foi recebido e o que fazemos com isso, de que forma é que utilizamos as experiências para alavancar a vida. Todos somos humanos, ninguém teve pais perfeitos, andou numa escola perfeita ou se relacionou com seres perfeitos. De uma forma ou de outra, em maior ou menor grau, muitos se sentiram mal-amados, negligenciados, excessivamente criticados, rigidamente disciplinados, ou superprotegidos ou…ou...ou. .

Os aspectos vulneráveis e carentes da criança que fomos um dia levam-nos a desenvolver maneiras de nos protegermos e compensar necessidades que não foram preenchidas. Nós crescemos, tornamo-nos adultos, mas essa criança com necessidades não preenchidas continua lá, não cresce. E é essa criança ferida que aparece em muitos momentos da nossa vida, em muitos relacionamentos. O mundo é um espelho. Quando estamos num relacionamento que nos devolve uma imagem de nós distorcida e pequenina, a pergunta não é “ porque é que a outra pessoa faz isto?” A pergunta é “o que é que me leva a estar com uma pessoa que me diminui e distorce o tamanho?” As respostas vão ser variadas. Não há boas ou más respostas.

É preciso validar a nossa criança interior, é preciso validar a sua dor para podermos encontrar a sua alegria, a sua criatividade, todo o seu potencial. É preciso encontrar a nossa criança Divina. Acredito que é absolutamente necessário amá-la. É aqui que encontramos o Amor Maior, dentro de nós próprios. Amarmo-nos, aceitarmos toda a nossa luz e toda a nossa escuridão, é sem dúvida o maior Amor de todos. E esta aceitação abre espaço para sermos o que viemos para Ser.


Exercício:

Há muitas formas de entrarmos em contacto com a criança interior. Escolhi uma pequena meditação. Um exercício simples para começares.

Senta-te ou deita-te confortavelmente. Inspira profundamente e expira. Relaxa cada parte do teu corpo.

O objectivo é encontrares-te a ti mesma, quando eras criança, em algum lugar. Essa criança pode estar a brincar no jardim, na praia, em casa… Pode estar a rir, chorar, mal-humorada, feliz. Chama essa criança da maneira que te chamavam quando eras pequena. Conversa com ela, ouve-a. O que é que ela precisa? Pergunta-lhe. Brinca, abraça-a, canta-lhe. Dá a essa criança o que ela mais precisa. Quando perceberes que a criança ficou satisfeita, volta ao aqui e agora.




 
 
 

Greatest Love Of All

I believe that children are our future,
teach them well and let them lead the way.
Show them all the beauty they possess inside,
Give them a sense of pride...To make it easier.
Let the children's laughter,
remind us how we used to be.
Everybody's searching for a hero,
people need someone to look up to.
I never found anyone who fulfilled my needs...
A lonely place to be, and so I learned to depend on me.
I decided long ago, never to walk in anyone's shadow,
If I fail, if I succeed at least I live as I believe.
No matter what they take from me,
They can't take away my dignity...
Because the greatest love of all is happening to me.
I've found the greatest love of all inside of me.
The greatest love of all is easy to achieve
Learning to love yourself, it is the greatest love of all.
And if by chance that special place,
that you've been dreaming of,
leads you to a lonely place
Find your strength in love.
 

(tradução)

Acredito que as crianças são o nosso futuro,
Ensinem-nas bem e deixem-nas liderar o caminho.
Mostrem-lhes toda a beleza que elas têm por dentro,
Dêem-lhes um senso de orgulho…Para facilitar.
Deixem que o riso das crianças,
nos lembre como costumávamos ser.
Toda a gente procura um herói,
as pessoas precisam de alguém para se espelhar.
Eu nunca encontrei ninguém que preenchesse as minhas necessidades….
Um lugar solitário para estar e por isso
aprendi a depender só de mim.
Decidi há muito tempo nunca andar à sombra de alguém.
Se eu fracassar, se eu for bem sucedida
pelo menos vivo da forma que eu acredito.
Não importa o que tirem de mim,
não podem tirar a minha dignidade…
Porque o melhor amor de todos
está a acontecer comigo.

Eu encontrei o melhor amor de todos
dentro de mim.
O melhor amor de todos
É fácil de alcançar
Aprender a amar a si mesmo
é o melhor amor de todos.
E se por acaso esse lugar especial,
com que tens sonhado,
te levar para um lugar isolado (só)
Encontra a tua força no amor.


 
Vera Braz Mendes
 
 

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Aquário


“Eu Sou a Água da Vida que se derrama para todos os Homens sedentos”

 

 

"A ti Aquário, dou o conceito de futuro para que o Homem possa ver outras possibilidade. Terás a dor da solidão, pois não te permito personalizar o meu amor. Mas para abrir os olhos do Homem para novas possibilidades, eu te dou a dádiva da liberdade, para que em liberdade, possas continuar a servir humanidade onde quer que seja necessário.

E Aquário voltou ao seu lugar.” – In “Os Nódulos Lunares” – Martin Schulman

 
E chegámos ao décimo primeiro passo, penúltimo passo na nossa caminhada – chegámos a Aquário. Signo fixo de Ar, símbolo da consciência grupal, do que em cada um nos liga com todos – Universalidade.

Depois da construção das estruturas e do homem ter assumido a sua responsabilidade enquanto ser social em Capricórnio, é em Aquário que se dá a consolidação do conhecimento e a sua distribuição por todos. Aquário é o aguadeiro que transporta a água da vida para dar de beber a quem tem sede. Símbolo da solidariedade, cooperação, fraternidade – irmandade humana alimentada pela esperança de uma visão futurista de uma sociedade melhor. É em Aquário que nos damos conta também do que não funciona, do que nos aprisiona ao passado e do que está obsoleto e não contribui para o desenvolvimento da sociedade como um todo. Signo muito ligado também à ciência, àquilo que traz inovação e possibilidade de crescimento. O progresso científico e tecnológico podem libertar o ser humano da prisão que as estruturas criaram. É o progresso cientifico e tecnológico, que permite disponibilizar para todos, por exemplo, o conhecimento que só era acessível a alguns, a internet é o maior símbolo do progresso aquariano. Mas, é também um progresso cientifico e tecnológico desenfreado, não fundamentado por valores humanistas, que se torna destrutivo. Num mundo dual, a luz e a escuridão estão sempre presentes.

Signo progressista, dos ideais e das esperanças, é tradicionalmente regido por Saturno e, na visão moderna da Astrologia, também regido por Úrano, o planeta da mudança, inovação, progresso…da mente cósmica. Úrano foi descoberto em 1783, no ano em que os Estados Unidos viram reconhecida a sua independência. Em 1789, inspirada na independência dos Estados Unidos, deu-se a revolução Francesa e as três palavras que para sempre a imortalizaram são também as palavras chave ligadas a Úrano – “Liberté, Egalité, Fraternité” (liberdade, igualdade e fraternidade), frase inspirada nas ideias do filósofo iluminista suiço Jean-Jacques Rousseau. Úrano traz esta necessidade de descondicionamento, de abertura de caminho - impulso para o que Jung chamou de processo de individuação. Em astrologia, o processo de individuação é simbolizado pelo eixo Leão – Aquário – O Eu Sou ao serviço do Nós Somos. A expressão criativa individual, simbolizada por Leão, ao serviço do Todo impessoal simbolizado por Aquário. “Leão rege os reis e a monarquia; Aquário rege o homem comum e a democracia; o Sol como “rei” tem de aprender a servir o homem comum ou, na situação inversa, temos de aprender que todos trazem um “rei” dentro de si (…) Os indianos fazem isso simbolicamente quando se encontram: juntam as mãos, inclinam-se e dizem: “Namaste” (Eu inclino-me diante da divindade que há em ti). Dessa maneira, Aquário dá equilíbrio a Leão, tal como o fazem todos os signos opostos”. In O Simbolismo Junguiano na Astrologia de Alice O. Howell

Há uns meses, a propósito de Leão, escrevi; “Num tempo em que a necessidade de mudança se torna urgente, o apelo do Nós Somos é cada vez mais sentido por cada um de nós… acredito que ninguém chegará ao Nós Somos sem ter encontrado o Eu Sou. Aqui reside o grande equívoco – Ser centrado não é a mesma coisa do que ser ego-centrado. Ser auto-consciente não é a mesma coisa que ser egoísta. Ser uma expressão individualizada do Criador, ser criativo, não é Ego. Em Leão encontro o que em mim, dentro de mim, me torna especial… Só quando encontro a minha própria Luz, o Divino em Mim, posso ajudar os outros a verem a Sua. Encontro a coragem para ser a verdade de mim próprio, que me responsabiliza pelo serviço (Virgem), pela partilha do meu fogo em liberdade e comunhão (Aquário)… sem me perder. Só aí estarei pronto para me dissolver em Peixes.”

Aquário simboliza o cidadão do mundo -  livre, fraterno, independente, intuitivo, original, de mente aberta, sem preconceitos, reformista por natureza. Por isso, muitas vezes o rebelde, excêntrico… do contra. Contra o que está instituído e não funciona. Contra o que condiciona e não permite ser autêntico. Contra o que é imposto apenas porque é aceite pela maioria…. Aquário é Liberdade, é processo criativo puro e, por isso, é também Saturno, o seu co-regente tradicional, que simboliza estrutura, limite e sobretudo responsabilidade. Liberdade e responsabilidade andam de mãos dadas – Se eu sou livre, responsabilizo-me por Ser quem Sou. Se eu sou criativo, responsabilizo-me por dar forma à minha criatividade. Se eu sou livre, responsabilizo-me pela parte que me cabe no processo evolutivo do que eu chamo humanidade. Este é o “preço” da liberdade e que Saturno cobra – a responsabilidade pelo meu próprio processo, pela minha criação - de que forma o "eu sou" faz parte do "nós somos", de que forma é que o "eu sou" acrescenta o "nós somos"?


“Na mitologia grega encontramos mais matéria simbólica que nos ilumina acerca do planeta Úrano e do porquê da sua associação moderna com o signo de Aquário: Úrano é a força criativa original, que insemina incessantemente Gaia, não permitindo sequer intervalo para que as suas criações brotem do útero materno, até ao momento em que é castrado pelo seu filho, Saturno precisamente. Poderemos então afirmar que em Aquário se encena este conflito primordial entre a criatividade sem limites (Úrano) e a necessidade de estruturação e norma (Saturno). Criar sem finalidade, sem regra, inconsequentemente, é um processo caótico. É necessário estabelecer um propósito para a criação, que forçosamente irá definir limites, mas que proporcionará um sentido, uma estrutura organizada e coerente - um cosmos.” Astrologia Jorge Lancinha


Comecei este texto com uma pequena parte da alegoria que vem nos Nódulos Lunares de Martin Schulman… “Terás a dor da solidão, pois não te permito personalizar o meu amor” – Aquário é um signo de Ar e o Ar é o mundo das ideias arquetípicas – Aquário simboliza este “mundo” de ideias abstractas, impessoal. Ergue bandeiras em nome de causas, ideais, reformas… No meio de um grupo, sempre rodeado por uma multidão que “luta” pelas mesmas visões, pode ser um solitário… sempre adiantado no tempo, com visões universalistas muitas vezes impregnadas de uma impessoalidade fria que o tornam cego para quem tem sede mesmo ali ao lado. É aqui que entra o regente da Alma – Júpiter. Aquário é um signo do 5º Raio – Ciência e Técnica. Com Júpiter, a meta da Alma colectiva é integrar o Amor-sabedoria do segundo Raio, que deve expressar a unidade de cada um. O trabalho de Júpiter é fundir a mente e o coração para que depois se expandam ao nível grupal – na grande família chamada Humanidade.

O propósito de Aquário é ganhar consciência grupal, de modo a poder ser um aguadeiro, distribuidor de luz, da água da vida, para todos.

 

Palavras chave:

Independente, inventivo, visionário, progressista, original, dedicado a uma causa universal.

Imprevisível, rígido, rebelde, radical, excêntrico, individualista, contestatário

 

 

 

Vera Braz Mendes

domingo, 27 de janeiro de 2013

Percepção é Projecção


Percepção é projecção
 
 

 


Certo dia, um rei chamou ao seu palácio o mestre zen Muhak - que viveu de 1317 a 1405 - e disse-lhe que, para afastar o cansaço e a tensão do trabalho administrativo, queria ter uma conversa completamente informal com ele. De seguida, o rei disse que Muhak parecia um grande porco faminto a procurar comida.
"E você, excelência", respondeu Muhak, "parece o Buda Sakiamuni a meditar, sobre um pico elevado dos Himalaias".
O rei ficou surpreendido com a resposta de Muhak.
"Comparei-te a um porco, e tu comparas-me ao Buda?"
"É que um porco só pode ver porco, excelência, e um Buda só pode ver Buda", explicou Muhak com um jeito humilde.
O rei sorriu, antes de admitir que a resposta de Muhak era uma lição de sabedoria.
(conto Zen)


Será que a realidade existe? Ou será que existe a minha, a tua… em mim… em ti…? Vários são os caminhos que nos guiam no sentido de que a realidade é apenas uma projecção… uma ilusão.

Segundo Mihaly Csikszentmihalyi (um dos grandes investigadores mundiais na área da Psicologia Positiva), a cada segundo entram na neurologia do nosso sistema nervoso cerca de 2 milhões de bits de informação, dos quais, o cérebro humano só é capaz de processar cerca de 134. 134 bits que chamamos realidade… É impossível processar conscientemente cada byte de informação que nos chega pelos sentidos... os 134 bits são seleccionados através de um processo de generalização, distorção e omissão da informação. Esta selecção vai produzir uma representação interna da “realidade” que gerará um estado emocional e uma fisiologia, que determinarão um comportamento. O cérebro é uma unidade de processamento de informações. As informações tornam-se numa representação interna utilizando imagens, sons, sensações, cheiros e gostos. A fim de lidar com 134 bits de informaçãpo por segundo, o cérebro processa-a dividindo-a em grupos de sete mais ou menos dois (7 + / - 2). A maioria das pessoas não se lembra mais de sete marcas diferentes de um determinado produto. Sete mais ou menos dois pedaços são a quantidade máxima de informação que podemos lidar conscientemente. Cada um de nós faz a sua própria selecção, a sua própria generalização, omissão e distorção, usando filtros que têm por base valores, crenças, “programas”, decisões, memórias… história pessoal. Nada pode ser mais libertador do que percebermos que mudando o nosso sistema de filtros, nova e diferente informação é processada, permitimo-nos assim uma existência totalmente diferente.

Não conseguimos ver outra coisa senão o que somos, por isso, quanto mais positivo e ilimitado for, por exemplo, o nosso sistema de crenças pessoal, mais positivo e ilimitado será o mundo que experimentamos. Aquilo que eu percebo do outro ou do mundo não é mais do que a minha imagem do outro ou do mundo. Percepção é projecção. Neste sentido, embora a grande maioria de nós viva no efeito, na verdade, nós somos a causa das nossas experiências… grandes mudanças têm lugar quando somos capazes de nos colocar na causa do que acontece porque é a única forma de podermos mudar o que acontece.

A única pergunta que me faço é: Sou feliz com os meus 134 bits? Há um universo de opções à minha volta, um universo de possibilidades… porque é que recrio sempre a mesma realidade, os mesmos padrões? Porque é que olhando no mesmo sentido alguns percepcionam oportunidades...? porque é que onde eu vejo e encontro negro, outros encontram o arco iris? o que me impede de mudar? Está tudo dentro de mim!


“Energy goes where attention flows”, “a energia vai para onde está o fluxo da atenção”

 
Exercício:

The three blessings – As três bênçãos

Todos os dias antes de te deitares, regista num caderno três coisas positivas que aconteceram no teu dia e pelas quais estás grata. Se no início for difícil, vais ver que depois se torna num hábito.
 
 
 
 
 
 
Vera Braz Mendes
 
 

terça-feira, 19 de junho de 2012

Caranguejo “Eu Construo uma casa iluminada, e aí construo a minha morada”




O Solstício em Junho (no dia 20 ou 21) é o instante marca o início do Verão no Hemisfério Norte, a entrada do Sol no signo de Caranguejo. É interessante verificar que nos solstícios se celebram duas importantes festas Cristãs; no de Verão a de São João Baptista (para o Cristianismo São João é o testemunho da Luz, introduz o baptismo) e no de Inverno, o Natal, o nascimento de Jesus.
Caranguejo ou Câncer é o quarto signo do zodíaco e forma com Escorpião e Peixes a triplicidade dos signos da Água. É também um dos quatro signos cardeais, juntamente com Áries / Carneiro, Libra / Balança e Capricórnio.

Para os Caldeus e depois para os neoplatónicos, Caranguejo era o Portão dos Homens, por onde a Alma descia das esferas celestes para a encarnação (Liz Green – A Astrologia do destino).
Caranguejo é a primeira água, a água de onde todos vimos. É simbolicamente o ventre materno, a ligação umbilical a uma mãe que nos alimenta, nutre e protege. A ligação a uma “mãe” que nos devolve um sentimento de pertença. E é isso que em Caranguejo procuramos – pertencer. Procuramos o colo que nos nutra e segure.  É a nossa fundação emocional, os nossos padrões.... muitas vezes a sombra das dependências, dos instintos que nos levam a ser reactivos para obtermos alimento … amor.

Na água corre também memória e, por isso, em Caranguejo estão gravadas as emoções vividas em experiências anteriores – daí a sua ligação ao passado, à infância. Na água corre seiva… ADN… karma biológico que nos liga à família.
Caranguejo é sensibilidade, vulnerabilidade, fragilidade… e é aqui que encontramos a ligação ao crustáceo – a necessidade da carapaça, de andar para o lado ou para trás - puro instinto de protecção, de sobrevivência.

Há dois grandes ” cortes” na vida – primeiro com a Causa Primeira, com Deus - experiência de separação. Depois, o cordão umbilical, com a mãe - experiência de separação novamente. E é este profundo sentimento de perda que afinal todos queremos reparar. A necessidade de pertencer a alguma coisa, a procura de um Lar, vem da vontade de preencher uma perda, uma lacuna imensa que nos envolve e enrola, dissolvendo-nos na massa, afastando-nos do que mais procuramos - da ligação.
“Acredito que Câncer é levado a procurar essa fonte Divina: esse é o seu Daimon, imaginado tanto com o começo da vida antes da separação física e do nascimento, como o fim da vida quando a alma mais uma vez se funde com o Um. Assim, é tanto um anseio regressivo pelo ventre, como um anseio místico por Deus. É compreensível que a projecção desse símbolo primordial caia primeiramente sobre a mãe pessoal, e talvez seja por isso que ela tenha um aspecto tão poderoso na vida dos cancerianos, a despeito de ela ser ou não, na realidade e em qualquer sentido objectivo, tão poderosa. O “clássico complexo de mãe” do canceriano não diz respeito à mãe pessoal. É o primeiro estágio de um desdobramento gradual em direcção a uma fonte interior, embora em geral Câncer procure, em diferentes períodos da vida, essa fonte personificada numa pessoa “maternal”, homem ou mulher, que possa cuidar dele e livrá-lo do medo do isolamento e separação” (Liz Green – A Astrologia do Destino).
Enquanto não amadurecermos o arquétipo de Caranguejo em nós, seremos os eternos filhos à procura fora de nós, de quem nos nutra, proteja e segure. Criamos dependências emocionais, impedimentos ao nascimento de uma consciência individualizada, procurando realização num filho, numa mãe, numa família... numa tribo. Desresponsabilizamo-nos de encontrar em nós os alicerces da segurança que precisamos.
Caranguejo é a consciência de massa quando dominado pelo seu regente, a Lua. 


A Lua simboliza a nossa capacidade de sentir e de nos sintonizarmos com o meio ambiente. Representa a nossa vida emocional, o instinto e a auto preservação. Num Mapa Astrológico é símbolo do relacionamento com o feminino, com a imagem da mãe e com a procura de alimento (físico, psicológico, emocional).


O seu símbolo simboliza o vazio que falta preencher para chegar ao todo… carência… mas também receptividade. O semicírculo representa também a alma, o sentir, intuir.

No sistema solar, o Sol é central. Irradia luz, vida. No ser humano, a função que o Sol desempenha é a mesma, ou seja, é o centro integrador da consciência, gerador de luz. No mapa natal, o Sol ajuda-nos a tornarmo-nos nós próprios, é através dele que encontramos expressão. Se o Sol é o princípio masculino activo, Animus, a Lua é o princípio feminino passivo, Anima. Sol e Lua, símbolos da dualidade; dia/noite, feminino/masculino, consciente/inconsciente, activo/passivo, emanador/receptor…

A sua natureza mutável, cíclica, ligou-a desde sempre à ideia de um mundo sempre em movimento, inconstante, ao arquétipo feminino, à maternidade, ao alimento, às emoções e aos afectos. A lua é receptiva e passiva por natureza, não tem luz própria, reflecte a luz solar e serve de mediador entre o Sol e a Terra. A sua natureza nocturna conectou-a com a escuridão, medo, sombra, reserva, perigo. Por isso, num mapa natal, a Lua representa também os nossos medos profundos e os padrões instintivos de comportamento reactivo que adoptamos quando nos encontramos em circunstâncias que põem em causa a nossa segurança emocional. O nosso sistema de segurança emocional, auto-preservação, constitui-se na infância – até aos quatro anos. É a Lua que nos diz sobre que sistema é esse. Nos primeiros meses de vida, na percepção da criança, ela e a mãe ainda são uma coisa só. A mãe é todo o nosso universo, é através dela que captamos o mundo. Somos dos únicos animais que nasce frágil e dependente, precisamos da mãe para sobreviver. Esta dependência é a matriz de nossa consciência lunar. 

E a Lua tem um enorme instinto de posse psíquica, muita dificuldade em “abrir mão”, largar. No homem comum, esta lua traz sensibilidade… mas também, confusão, inconstância e muita subjectividade. Ao deixar-se mergulhar na sua própria subjectividade, fica imerso na multidão, na massa, na família… perde noção de Ser… É, porque ilusoriamente pertence a alguma coisa ou alguém. Este É devolve-lhe solidão. Na dor da solidão reside o seu maior crescimento que conduz ao despertar da Alma. A solidão convida a olhar para dentro de forma a curar o mundo emocional. Convida a perguntar de que forma é que nos relacionamos com as emoções. O que é que precisamos para nos sentirmos seguros? Como é que nos relacionamos com a nossa criança interior. Como é que nos alimentamos emocionalmente? É a partir daqui que o regente esotérico Neptuno começa a actuar. Com Neptuno, Caranguejo desperta para o que está à sua volta, para o conceito de grande família universal. Podemos ver então no Caranguejo a “Mãe Universal” lançando para o mundo os maiores dons deste signo: Nutrimento e cuidado.
Os sentimentos, a sensibilidade antes caóticos passam a ser pura inspiração que escuta a sabedoria da voz interior.
Caranguejo é a percepção da Alma Colectiva.

Frases de Caranguejo:

Personalidade: “Que o isolamento seja a regra apesar de existir o colectivo”

Alma: “Eu Construo uma casa iluminada, e aí construo a minha morada”

Deixo aqui mais uma boa visão de Caranguejo, postada pelo António Rosa no seu Blog Cova do Urso

Vera Braz Mendes


segunda-feira, 18 de junho de 2012

Metamorfose







No dia em que a vida me virou do avesso e expôs tudo em mim, aprendi que afinal, esse era o lado direito. Loucura para uns, lucidez para mim. Encontrei na fragilidade uma força própria, força que hoje me permite escrever sobre algo tão pessoal. 

Posso resumir assim a viagem que iniciei em 2 de Fevereiro de 2004. Longa viagem, dolorosa viagem, divina viagem. Uma viagem interna, intensa, que poderia ser de qualquer um… mas é a minha. E nada do que possa escrever ou dizer poderá traduzir a profundidade do que encontrei no caminho.

Sempre tive consciência que um dia iniciaria a viagem. Na verdade, o medo do que eu sabia ser um caminho sem volta fez com que a adiasse… se num dia desejava secretamente que se iniciasse no outro desejava ainda mais secretamente que nunca começasse… a ilusão anestesia-nos.

Eu sabia, como todos sabemos, que não me possibilitava ser inteira – queria encaixar, ser igual, reconhecida, validada, boa mãe, boa mulher, um bom trabalho... normal (o que quer que isso seja). Pelo caminho calei, abafei partes de mim que não se enquadravam com aquilo que, afinal de contas, acreditava que esperavam de mim… Nenhuma mentira é tão verdadeira. Ninguém espera de mim.

Toda a vida fui viajando. Sem qualquer compromisso interno, ía mascarando o medo de mergulhar… livros, cursos… desenvolvimento pessoal … desenvolvimento mental, não foi mais do que isso… desenvolvimento mental.

Em Fevereiro de 2004 iniciei a verdadeira viagem. Tive um acidente, fui atropelada. Parece um lugar comum, mas termos a vida posta em causa muda-nos mesmo a perspectiva… ironicamente, começamos a viver. Ficar durante um tempo literalmente parada, dependente para tudo e de todos, dissolveu-me as certezas, preparou-me novas perguntas, devolveu-me significado.

Estranhamente, as dores no corpo eram insuportáveis mas as dores na Alma não. Doía-me o corpo mas não me doía a Alma. E se isto bastava para me alargar a visão, o que se passou nos dois anos seguintes fez-me descobrir o meu lado mais sensível e frágil. Fez-me descobrir também uma força, um poder que não sabia que tinha.

Nos dois anos seguintes conheci o medo, todas as facetas do medo... medo que paralisa, congela, que se entranha… ilógico… Ataques de pânico constantes e generalizados … medo de morrer, medo de viver. Conheci também durante esses dois anos a coragem. A coragem de perceber força na fragilidade, a coragem que, apesar do medo, não me deixava desistir.

Como mulher aprendi a lição que a mãe em mim menos queria aprender... Que os meus filhos não são meus, que são seres livres que vivem sem mim, mas em Mim. Amarga lição para a mãe, abençoada lição para a Mulher, para o Ser. Nesse dia, acabaram as desculpas.... Nesse dia acabou a necessidade que eles necessitassem de mim. Hoje mais livres, inteiros, sem culpas, sem o peso de me justificarem a existência.

Ganhei a liberdade de procurar o que no mais íntimo do meu ser fazia sentido, mesmo que parecesse insanidade aos olhos de muitos, inclusive, às vezes, aos meus próprios olhos. Encontrei uma fé inabalável e uma crença que me potencia todos os dias; a vida é uma viagem com uma multiplicidade de perspectivas e a maior liberdade reside na escolha da perspectiva sobre a qual viver, sobre a qual viajar.

A vida é metamorfose constante.



Nota: Agradeço à Susana Vitorino que no seu blog Viajante me lançou o desafio (convite) de escrever sobre esta minha viagem.

Vera Braz Mendes




segunda-feira, 11 de junho de 2012

Tenho em mim todas as sombras do mundo







Tenho em mim todas as sombras do mundo. E elas vêm… tantas vezes elas vêm. Estou no meio e observo. E continuo no meio… Tanta luz, tantas verdades, promessas… tantas trevas. E eu estou humanamente no meio. Quero luz, quero brilho, quero Deus… quero o Deus em mim… mas tenho em mim todas as sombras do mundo! Sei o que não sinto. Sinto o que não sei. Sei o que sei e sinto. Na confusão desisto, desarmo, perco-me e encontro-me.

Tudo o que observo é projecção minha. Não há excepções. Sou eu a contadora de histórias, a manipuladora de significados. A sombra sempre esteve atrás de mim. Quando olho apenas para a luz… não a vejo. Se estiver mergulhada na escuridão… também não a vejo. Percebo-a pela projecção. Aumento-a pelo significado. E é na mudança de significado que construo a ponte que me guia à liberdade.

A verdadeira guerra não é lá fora, é cá dentro. A verdadeira prisão não tem grades nem muros. A cabeça explode e o coração aquieta-se. O coração sabe.

Humanamente no meio, descobri que a sombra é um campo fértil. No mergulho sem máscara descubro quem também sou e ainda não sabia. Descubro o que impede, o que aprisiona, o que ilude… Exponho-me e descubro a curadora ferida. Na exposição vislumbro a magnificência…


Na busca do conhecimento todos os dias adquiro. Na busca da totalidade todos os dias deixo alguma coisa para trás. E é assim que encontro em mim, também, todos os sonhos do mundo.


“Tive um sonho que me assustou e me animou ao mesmo tempo. Era de noite, e encontrava-me num lugar desconhecido. Avançava com dificuldade contra um vento forte. Uma densa bruma cobria tudo. Nas minhas mãos em forma de taça, tinha uma débil luz que ameaçava extinguir-se a todo o momento. A minha vida dependia dessa débil luz, que eu protegia preciosamente. De repente, tive a impressão de que algo avançava atrás de mim. Olhei para trás e apercebi-me da forma gigantesca de um ser que me seguia. Mas ao mesmo tempo estava consciente de que, apesar do meu terror, devia proteger a minha luz através das trevas e contra o vento. Ao acordar dei-me conta que a forma monstruosa era a minha sombra, formada pela pequena chama que tinha acendido no meio da tempestade. Sabia também que aquela frágil luz era a minha consciência. A única que possuía, confrontada com o poder das trevas, era uma luz, a minha única luz”  - Recuerdos, Sueños e Pensamientos – Carl Jung


Vera Braz Mendes




Eu falo, Tu falas, Nós não nos Ouvimos!

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular…… A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa.

No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar.


Para mim, Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também.

Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.
 Rubem Alves



A faculdade que mais tive de treinar e que mais trabalho me deu e dá a desenvolver é saber ouvir. É preciso silêncio, silêncio interno para poder ouvir.

Nada contribuiu mais para o meu crescimento enquanto pessoa do que ter a consciência que não suportava os silêncios… não me suportava. O ruído anestesia-nos, distrai-nos do contacto com os nossos diálogos internos, do confronto connosco. É fácil termos sempre uma opinião, uma resposta pronta para solucionar milagrosamente os problemas dos outros. Mas será que realmente os ouvimos? Será que damos espaço ao outro para ser ouvido? Ou será que sempre que alguém fala connosco, nos embrenhamos imediatamente em nós mesmos procurando soluções… soluções que seriam boas para nós se tivéssemos coragem de as pôr em prática. Afinal, tantas e tantas vezes que os problemas que os outros nos contam não são mais dos que os nossos… contados por outra pessoa.
Neste texto belíssimo de Rubem Alves está bem retratado o que muitas vezes, demasiadas vezes diria eu, se passa nos diálogos. Alguém fala, e nós, em vez de ouvirmos e sentirmos o outro de acordo com o que o outro é, recriamo-lo e à solução para o seu problema, para a sua vida, segundo o nosso “modelo” do mundo. Opinar, ter a solução, convencermo-nos de que sabemos quem o outro é e o que precisa pode ser também uma forma de nos validarmos, uma forma de pedirmos ao outro que veja como somos especiais, como sabemos tanto…. Como existimos.

No entanto, mais do que a arrogância e vaidade que Rubem Alves menciona no texto, acredito que a nossa surdez tem profundamente a ver com a sensação de invisibilidade que temos e com o medo profundo de nos confrontarmos com o que não foi ainda preenchido e que está dolorosamente vazio … Todos nos sentiríamos especiais, se ao menos ouvíssemos o silêncio. E ninguém nos ensina a ouvir o silêncio.

O som maravilhoso do silêncio não existe, nem pode existir enquanto nele apenas se manifestar o nosso maior inimigo, nós próprios. No silêncio manifesta-se o som estridente dos nossos diálogos internos. E como podem ser terríveis os nossos diálogos. Tomar consciência do que dizemos a nós próprios é um passo importantíssimo para sabermos quais realmente são as nossas necessidades, o que nos falta, o que pensamos sobre nós. E quando reconhecemos o que nos faz falta, o que sempre nos faltou, o que pensamos que somos, estamos prontos para transformar, para nos transformarmos. E aí, a alquimia começa.

Ouvirmo-nos é o primeiro passo para que sejamos nós a dirigir a nossa mente e não a nossa mente a dirigir-nos. Ouvirmo-nos e validarmo-nos é o primeiro passo para que possamos verdadeiramente ouvir os outros… e escutar o som maravilhoso do silêncio.

Exercício:

Pára por uns momentos e dá-te conta do teu diálogo interno. Ouve-te como se estivesses de fora a ouvir pessoas a conversar.
Pega numa folha e escreve tudo o que que vier à tua mente, sem preconceito. Lê o que escreveste e depois, se quiseres, destrói o papel.

Deixo aqui o texto completo de Rubem Alves.

Escutatória


Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.

Escutar é complicado e sutil. Diz Alberto Caeiro que “não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma”.
Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.

Parafraseio o Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma”. Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer.
Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.
Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos…

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64. Contou-me de sua experiência com os índios.

Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, abrindo vazios de silêncio, expulsando todas as idéias estranhas.). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem.

Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que ele julgava essenciais. São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se eu falar logo a seguir, são duas as possibilidades.
Primeira: “Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado”.

Segunda: “Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou”.
Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada. O longo silêncio quer dizer: “Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou”. E assim vai a reunião.

Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.
Eu comecei a ouvir.

Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras.

A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa.

No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar.

Para mim, Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também.

Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.


Vera Braz Mendes


sábado, 19 de maio de 2012

Lua Nova de Gémeos e Eclipse Solar

Lua Nova de Gémeos e Eclipse Solar







A próxima lua nova será no grau 1 de Gémeos, no Domingo 20 de Maio às 23:48. A lua nova de Gémeos coincide também com um eclipse anelar do sol.


Cada lua nova dá-nos a oportunidade de nos alinharmos com a energia que está a ser libertada. É o início de um novo ciclo e, portanto, uma excelente oportunidade de estabelecermos objectivos de acordo com o que o Céu propõe. Na lua nova, a lua é impregnada pela energia vital solar, por isso, termos consciência do que está a ser proposto pode ser uma mais valia extraordinária.


Esta lua nova coincide com um eclipse anelar do Sol, ou seja, a Lua, que fica entre a Terra e o Sol,  não oculta completamente o Sol o que faz com que fique visível uma espécie de anel de fogo à volta da Lua. Embora o eclipse não seja visível em Portugal e por isso a sua acção seja mais efectiva nas partes do globo onde vai ser visível, o seu simbolismo, ao nível do processo pessoal de cada um de nós mantem-se. Num eclipse solar, deixamos de ver o Sol por alguns momentos, ele é eclipsado pela Lua e, simbolicamente, é como se não nos pudesse guiar, como se por uns momentos a luz nos fugisse. A Lua representa o passado e por isso, é um bom momento para revermos o que temos de deixar para trás, o que não nos faz mais falta e está a servir de entrave para prosseguirmos no Caminho. É um bom momento para contactar com medos escondidos, bloqueios, padrões que nos limitam.


Muitas vezes, um eclipse é um momento difícil e, a sua influência, dependendo do que “eclipsa” no nosso mapa, pode fazer-se sentir por vários meses (depende da duração real do eclipse).


É uma oportunidade para consciencializarmos que, embora não tenhamos o Sol, a luz para nos guiar, temos e teremos sempre um Sol, uma luz interna com a qual podemos entrar em contacto. Um eclipse solar estimula-nos a emanar a nossa própria Luz, aquela que está sempre disponível no nosso interior. Sendo em Gémeos, é também uma oportunidade de encontrarmos o conhecimento dentro de nós mesmos e de começarmos a seleccionar a informação que realmente interessa, informação pragmática e profunda, assente em valores que se adeqúem à realidade presente e às necessidades básicas da vida, no presente, no aqui e agora (Mercúrio em conjunção a Júpiter em Touro). Informação que seja produtiva e nos guie no sentido do nosso crescimento e desenvolvimento.


Assim, no estabelecimento de objectivos da lua nova de Gémeos, devemos ter em conta todos estes factores.


Na lua nova de Gémeos podemos estabelecer objectivos de acordo com o simbolismo de Gémeos e de acordo com a casa (experiência) que abre com Gémeos no nosso mapa, ou seja, com a parte de nós ou a área de vida onde experienciamos dualidade, onde precisamos de variedade e estímulo mental. Onde precisamos estimular a curiosidade que nos leva à contínua colocação de perguntas e a disponibilidade e versatilidade que nos guiam no sentido da comunicação, no sentido de estabelecimento de relações com outras pessoas ou ideias.


Coincidindo a lua nova de Gémeos com um eclipse do Sol, estando o eclipse em quadratura com Neptuno e estando neste momento o planeta Vénus (regente esotérico de Gémeos) retrógado em Gémeos, será uma excelente altura para começarmos a usar a comunicação com um sentido de serviço. Uma boa altura para passarmos para a Inteligência do Coração.

Podem aceder ao texto sobre gémeos aqui

Como de costume, deixo-vos o símbolo sabeu para esta lua nova, o grau 1 de Gémeos. Muito elucidativo para a compreensão deste eclipse.

“Um barco de casco transparente revela maravilhas submarinas.

Ideia Básica: A revelação de energias inconscientes e de estruturas psíquicas submersas.
Na segurança relativa de um “barco”, um indivíduo particular aprende a ter consciência dos conteúdos até então ocultos do Inconsciente Colectivo do homem – desde que esse barco (isto é, seu ego, que o distingue da psique colectiva planetária da humanidade) tenha um casco transparente. A mente consciente deve ter-se tornado, pelo menos em parte, translúcida. Essa transparência não é uma directa. A janela da mente permanece fechada, mas, através dela, o indivíduo pode perceber o exterior – “exterior” significa, aqui, as camadas profundas da psique, que se encontram a baixo do nível normal de consciência.
Neste primeiro estágio do processo de “descoberta”, podemos falar, tão-somente, de visão, e não de identificação. Trata-se de um sentimento de admiração: “Eu não sabia que isso podia existir! Que beleza!” ou “Que excitante!” Uma nova dimensão da realidade é captada por aquele que busca com mais afinco.”

In Uma Mandala Astrológica – Dane Rudhyar



Vera Braz Mendes








segunda-feira, 12 de março de 2012

Retornar à Inocência




 "Um processo de coaching ao nível da identidade e ao nível espiritual pode ajudar-nos nesta procura, onde o estado desejado é estarmos profundamente conectados connosco"








“Don't be afraid to be weak. Don't be too proud to be strong. Just look into your heart my friend, that will be the return to yourself. The return to innocence”. (Não tenhas medo por seres fraco. Não tenhas tanto orgulho por seres forte. Apenas olha dentro do teu coração meu amigo, esse será o retorno a ti mesmo. O retorno à inocência).

Enigma Return to innocence



Há músicas, palavras, que têm o poder maravilhoso de despertar qualquer coisa dentro de nós. Não sei bem o quê, mas despertam. Esta música dos Enigma e, principalmente a letra, faz isso comigo. Esse não sei bem o quê. Mas é um quê muito profundo, um quê que me leva para dentro numa emoção absoluta e arrebatadora.

É este retorno à inocência, este encontro com o nosso self mais profundo que todos procuramos. De uma forma ou de outra, a resposta que procuramos à pergunta “quem sou eu?” é esta. Este estado essencial, este retorno à inocência. E encontramos muitas vezes um vislumbre dele; numa música, no nascimento de um filho, a contemplar uma flor…., para nos esquecermos logo de seguida. Desconectamo-nos. Perdemos contacto com o nosso Ser profundo e compensamo-nos em actividades e comportamentos que só nos mantêm desconectados. Tornamo-nos reactivos e não activos. Deixamos de ser co-criadores da nossa história. Passamos a agir para nos afastarmos daquilo que temos medo em vez de ficar em contacto com aquilo que somos e expressar criativamente o que somos no que fazemos.

Cada dia que passa, encontro mais pessoas que, como eu, procuram este retorno à inocência. Estamos claramente num período desafiador e é mesmo por isso que as possibilidades se abrem. Cada um fará o seu caminho, reavaliará a direcção que a sua vida tem estado a tomar e decide agir, ou não. Um processo de coaching ao nível da identidade e ao nível espiritual pode ajudar-nos nesta procura, onde o estado desejado é estarmos profundamente conectados connosco. É um despertar, um acordar, um sair da letargia que gera transformações nas nossas vidas.

A mudança é a única constante da vida. Mas mudança não quer dizer progresso, não é sinónimo de evolução. O desafio é aprender a acompanhar os movimentos naturais da mudança, participando deles mais conscientemente, em vez de sermos levados inconscientemente pelas circunstâncias que a vida nos traz. O desafio é aproveitar a mudança num sentido evolutivo, num sentido de crescimento pessoal. E há várias formas de fazeres o caminho. Escolhe com o coração e saberás que é a certa, porque é a Tua. Não desistas de te religares à inocência. E “don't care what people say, just follow your own way. Don't give up and use the chance to return to innocence.“ (Não te importes com o que os outros dizem, segue apenas o teu próprio caminho. Não desistas e usa a oportunidade para retornares à inocência.).

Exercício:


Metáfora da Fonte Criativa da vida

(Faz o exercício quando souberes todos os passos ou pede a alguém para te guiar)


Vai para um lugar confortável e descontrai. Toma atenção à respiração e relaxa. Inspira e expira profundamente quatro vezes.


-Imagina uma bola brilhante de luz, pairando sobre a tua cabeça, representando simbolicamente a fonte criativa da vida.

- Pede a essa bola de luz que envie um foco de luz sobre a tua cabeça, que ele desça pela coluna vertebral, pelas pernas, até aos pés, que atravesse o chão e desça até o centro da terra.

- Na próxima respiração, absorve a energia do centro da terra: que essa energia suba através dos teus pés até o centro do teu peito, e deixa essa energia ficar aí a girar, como uma pequena bola.

- Pede novamente um foco dessa luz sobre a tua cabeça, e deixa essa energia conectar-se com a pequena bola no teu peito, e que essas duas energias se fundam.

- Agora estás, simbolicamente, a receber uma energia que cria nova vida, e outra energia que vem da terra e que faz a vida florescer.

- Deixa essa energia crescer e encher todas as tuas células, vê a energia expandir-se, saindo do teu corpo e enchendo cada átomo e cada molécula no sítio onde estás sentada.

- Agora, acompanha essa energia ao penetrar cada átomo nesse sítio, percebe e experimenta como tudo vem da mesma fonte de vida, agradece por essa igualdade, e agradece pelas diferenças.

- Recebe tudo de volta, e deixa a energia crescer até transformar-se numa brilhante pérola de luz no meio do teu peito. Sente a paz, ouve o silêncio dentro de ti, e diz a ti própria: ‘Eu sou a paz’."








Vera Braz Mendes